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Teatro rubro: Fagundes faz plateia pensar

Divulgação

O espetáculo Vermelho trouxe a Maceió Fagundes em dose dupla, pai e filho – Antônio e Bruno – e na bagagem a missão de fazer a plateia pensar. Exatamente, mais que uma peça de teatro, o espetáculo trata de forma complexa temas que passam despercebidos no dia a dia das pessoas comuns.

Antonio Fagundes dá vida a Mark Kothko, artista prepotente que carrega consigo o orgulho por ter ajudado a “sepultar” a arte impressionista. Kothko era natural da União Soviética e radicado nos Estados Unidos, onde alcançou fama. Rotulado de expressionista abstrato, Rothko resistia, pois via em suas telas a capacidade de fazer o espectador pulsar. Não a considerava abstrata, mas subjetivista, reconhecendo que para entendê-la eram necessárias paciência e dedicação.

Fazendo o contraponto do espetáculo está Ken, interpretado por Bruno Fagundes (22), o auxiliar de Kothko que sonha em se tornar um grande artista, assim como o mestre. Os diálogos e embates travados pela dupla ajudam o público a entender a personalidade intimista e prepotente de Kothko.

Muitas vezes a peça lembrou-me “A Casa Amarela”, por Gero Camilo, num monólogo incrível. Onde o único artista no palco chegou ao seu ápice dando vida não só a Van Gogh, o protagonista, mas também Paul Gaugin. Eles que tiveram uma relação de amizade e ódio tão intensa, capaz de influencia, sobremaneira, na obra de antes.

Guardam-se as proporções, pois na “Casa” de Van Gogh havia mais cor, mais loucura e mais intensidade. Por seu turno, “Vermelho” guardou mais drama, mais conflitos e mais vermelho, muito mais.

O mais interessante dos diálogos de Kothko e seu ajudante foi a capacidade de transmitir ao público informações pela maioria desconhecida. Muitos não sabem que a história da arte é feita de conflitos, que a geração que sobrevém ataca e minimiza a anterior, mostrando força e “bom gosto”. Vermelho nos mostrou pelos olhos de um Expressionista sua glória ao ultrapassar os Impressionistas e seu fracasso ao ver-se engolido pela Arte Pop de Andy Warhol.

As críticas tão atuais tecidas por Kothko (A. Fagundes) a cultura de massa que populariza arte de gosto duvidoso e que transforma conceitos superficiais em verdades indiscutíveis, empobrecem culturalmente as pessoas, que simplesmente aceitam a ‘nova moda’ sem preocupar-se com seu sentido e intenção.

Veladamente a crítica que se faz aos grandes empreendimentos, financiadores e mantenedores da arte, é o maior legado da peça. Supera a inestimável contribuição social de apresentar ao público um artista do quilate de Kothko, mas não tão conhecido por “essas bandas” do Atlântico.

E, indubitavelmente, o desconhecimento popular sobre Kothko e outros expressionistas deve-se muito ao sucesso da arte popular, da estética para a massa e da influencia dos meios de comunicação de massa criando e afirmando o que deveria ser considerado arte. Mais uma vez a arte que sobreveio engoliu a antecessora.

Nossa Capital, Maceió, é bem carente de programas culturais, não temos grandes incentivos, nem escolas de belas artes e muito menos companhia de teatro com incentivos necessários a sua sobrevivência. Lamentavelmente somos reféns dos espetáculos que saem em turnê e passam por aqui, e normalmente as comédias são melhor aceitas pelo público.

E como bem frisou Fagundes-pai ao final de “Vermelho”, num bate papo, as pessoas não querem pensar e não se sentem atraídas por nada que lhes desperte o pensamento, a autocrítica e a autocensura.

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Divulgação – bate-papo

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Outra abordagem sobre o tema: O que é o vermelho, o preto, o branco?

 
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Publicado por em 15/10/2012 em Cultura

 

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Graciliano Ramos nos palcos

O espetáculo “Pedaços de nós mesmos”, da Companhia Teatral Mestres da Graça, resgata o interesse pelas obras de Graciliano Ramos.

imagem de divulgação

A peça tem como mote a costura de fragmentos da biografia e de obras literárias de Graciliano Ramos, como “Angústia” e “Memórias do Cárcere”, sem passar despercebido por “A Terra dos Meninos Pelados”.

A cia conta com jovens integrantes, dedicação e alguma teimosia. Não é novidade que em Alagoas é muito difícil fazer e viver de arte. Os atores são de Palmeira dos Índios, cidade em que Graciliano Ramos viveu por muito tempo até ser preso e enviado para o Rio de Janeiro (1936), onde morreu já na década de 50.

Sobrevivente dos anos de chumbo do Estado Novo, na Era Vargas, e da fúria do insaciável chefe da Polícia Política, Filinto Muller, um verdadeiro caçador de comunistas, Graciliano sofreu, aprendeu e escreveu.

Um verdadeiro amante e entusiasta do regionalismo mais puro do agreste nordestino, em suas obras não faltam elementos sertanejos e alguma fantasia.

Hoje podemos contemplar com grande satisfação a imortalidade das obras do Mestre Graça sendo divulgada e disseminada por meio das artes cênicas. O grupo teatral consegue fazer uma releitura simples e objetiva da importância literária de nosso conterrâneo na formação social e política de muitas gerações.

A temporada no teatro Deodoro terminou, os jovens atores devem retornar para Palmeira e espero que na mala levem mais entusiasmo e ânimo para continuar a difícil missão de fazer teatro em Alagoas.

Com este texto espero despertar no leitor o interesse por montagens alagoanas, que ainda que estejam longe da perfeição das peças do eixo Rio-São Paulo, fazem parte de nossa cultura, e é muito competente, principalmente quando reconhecemos a ausência de incentivo público, privado e de espectador.

 

Ficha Técnica*:

Dramaturgia e encenação: Lael Correa

Elenco: Arenilton Lima, Bruna Fernandes, Bruno Felinto, Cosme Rogério, David Pereira, Gilene Ives, Joana Torres, Luciano José, Marcone Correa, Neury Cavalcante.

Produção: Marcone Correia; Iluminação: Eduardo Junior; Sonoplastia: Alex Ricardo.

 

*Fonte: http://ascomteatro.blogspot.com/2011/11/pedacos-de-nos-mesmos-se-despede-do.html

 
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Publicado por em 17/11/2011 em Cultura

 

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A minha São Paulo cultural – Teatro

Em visita recente à cidade de São Paulo, tive a oportunidade de prestigiar montagens especiais de teatro e cinema. Dando prioridade a peças e filmes que julguei mais difíceis de chegar à capital alagoana, procurei aproveitar roteiros culturais alternativos.

Espetáculos Teatrais

Fragmentos do Interrogatório – convidada pela jovem atriz alagoana, Renata Sarmento, em curta temporada paulista, em face da conclusão de curso da escola de Atores Wolf Maya, tive a oportunidade, rara, de assistir a uma montagem de forte impacto emocional e apelo social.

“A obra relata o processo que foi instaurado nos anos de 1964 e 1965, que julgou os culpados do massacre de Auschwitz. As experiências vão além de uma denúncia. É a revelação de uma humanidade nascida da destruição”.

Impossível de retratar em palavras os sentimentos despertados pelas imagens, sons e interpretações, agradeço a chance de poder sentir fatos que nem regressão histórica seria capaz de tão bem traduzir.

* * *

Casa Amarela – monólogo dramático, interpretado por Gero Camilo. O ator paraibano redescobre e desvenda aos espectadores o pintor Van Gogh em sua fase mais produtiva e de maior impacto artístico em sua trajetória.

Recluso numa pequena cidade, no sul da França, recebe a visita do grande amigo Paul Gaugin, vivendo uma relação de amizade, admiração e de rusgas. Gero consegue transmitir ao espectador toda insanidade e genialidade própria de Vincent e protagonizar diálogos belíssimos entre as personagens com muita clareza e espiritualidade.

Caracterização e montagem de palco perfeitas e simples, o ator surpreende a todos ao final do espetáculo, mostrando-se inteiramente entregue ao papel e ao enredo.

* * *

Assombrações do Velho Recife – comédia regionalista, levada a São Paulo pela Cia Os Fofos, de Pernambuco, é de uma sacada fantástica. Procura resgatar os causos de infância narrados no Recife antigo, bem como fatos históricos e anedotas contadas pelo povo nordestino satirizando a elite, fosse a nobreza ou a burguesia.

Num espaço próprio, conta com vários cenários, levando o público a interagir totalmente com o espetáculo. Grupo grande, hilário e comprometido em fazer rir, conseguem transmitir com muita naturalidade o espírito inteligente e engenhoso do nordestino. Com tiradas muito próprias da região, prendem a atenção dos espectadores fazendo-os se comprometerem com o enredo.

 

Paulistas e sulistas, em geral, apreciam muito a nossa cultura, pude comprovar isso!

* * *

Vulgar – mais um espetáculo interpretado por jovens atores. Dessa vez, duas alagoanas participaram da montagem, Renata Sarmento e Amanda Mello.

Cenas inspiradas em obras de Nelson Rodrigues e interpretadas por atores da Escola Célia Helena. O público é levado à magia dos escritos do Pernambucano mais polêmico e realista de todos os tempos.

Os jovens possuem o ímpeto próprio de Nelson e de suas obras o que encaixa satisfatoriamente com o enredo montado a partir de diversas obras.

 

Grande satisfação e emoção poder assistir tantas boas montagens e com tão bom conteúdo. Coisas que só São Paulo podem nos proporcionar, mas que bem poderia ser em Maceió…

 
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Publicado por em 16/11/2011 em Cultura

 

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