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O inconveniente Suplicy

Quem é Eduardo Suplicy? Bem, muitos de nós só conhecem o Suplicy senador, político pelo Partido dos Trabalhadores – um de seus fundadores – e que em 2014 completará 23 anos de mandato ininterrupto no Senado Federal. Mas Suplicy tem uma história interessante e que merece ser contada.

Descendente de barões do café paulista e neto do riquíssimo empresário conde Francesco Matarazzo, Suplicy é formado em Administração de Empresas pela FGV e em Economia pela Universidade de Michigan (EUA).

Suplicy entrou para as disputas políticas em 1978 e desde então tem uma carreira ascendente nas proporcionais: deputado estadual, deputado federal, vereador e senador. Nunca venceu uma disputa majoritária, tendo sido derrotado por Jânio Quadros, Maluf e Quércia, sempre em São Paulo.

Suplicy possui como características determinantes sua personalidade única, sua coerência com princípios e com suas crenças e valores. Suplicy tem um jeito muito peculiar, fala mansa e baixa, dicção nada clara, mas uma capacidade ímpar de se fazer entender.

Nesses tantos anos de política, sempre com sucesso estampado, Suplicy despertou e desperta inimizades, inveja e controvérsias. Hoje é ele quem mais incomoda o PT. O partido está no comando do governo federal desde 2002 e desde 2003 enfrenta problemas com a ÉTICA por ter optado administrar o Brasil com as mesmas armas que sempre combateu nos governos que o antecederam.

Suplicy nunca admitiu isso, fiel a seus ideais e crente de que o PT que fundou ainda existe – mesmo que esteja escondido em algum lugar –, luta para resgatar os princípios éticos nos quais sempre acreditou. De dentro do partido ele tenta manter a voz ativa e alta no sentido de que no PT ainda há os idealistas românticos fundadores do partido e que não se venderam – talvez porque ele não precise. Continua defendendo a distribuição de renda e a melhoria das condições de vida dos mais humildes.

Em 1985, Suplicy, Sócrates, Marta, Lula e Adílson Monteiro Alves (crédito: Mário Leite)

O que mais chama a atenção é sua espontaneidade, sua capacidade de dizer o que pensa e de fazer pensar aqueles que se acomodaram ao sistema. Em 2003, quando uma crise interna fez com que o PT perdesse importantes “quadros” políticos com mandatos federais – como Heloisa Helena –, Suplicy manteve-se coerente e apoiou os colegas dissidentes, apontando as perseguições e o patrulhamento ideológico dentro do partido.

Os dissidentes saíram e levaram consigo os ideais iniciais do partido, mas o senador Suplicy continuou e com ele ficou a marca do que um dia foi o PT. Afinal, o partido é um antes e outro depois da vitória de 2002.

Suplicy apoiou a CPI que culminou com o caso mensalão, mas chorou. Realmente, não deve ser fácil ser voz dissonante mantendo-se fiel.

Quando seus companheiros desistiram de combater Sarney, Suplicy deu-lhe um “cartão vermelho” simbólico

Apoia a democracia e tem demonstrado isso quando declara apoio à criação de novos partidos ou à discussão político-partidária (como convenções) aberta aos eleitores e não só aos filiados. Não vota porque a bancada decide, não se vende aos joguetes políticos para troca de favores, tende a votar conforme sua consciência, ainda que não seja compreendido por seus pares.

Suplicy é uma figura folclórica e se tornou patrimônio político do paulista e do brasileiro, sua presença no cenário nacional é essencial.

Que ele consiga superar a perda de espaço crescente no partido com o apoio popular nas urnas, que não lhe falte coragem e que o brasileiro reconheça sua importância.

 

Segue a carta que enviou recentemente ao ex-presidente Lula, quem dita as regras no partido e traça as estratégias políticas. Confiram:

“Caro presidente Luiz Inácio Lula da Silva,

Sempre teríamos na transparência de nossos atos e na ética da vida pública os valores fundamentais do PT, foi o que muitas vezes ouvi de você. Nesses 33 anos de militância honrei esses valores e objetivos.

Quero lhe transmitir pessoalmente a minha disposição de ser candidato ao Senado em 2014 e naquela casa continuar a honrar o PT. Tenho procurado marcar um encontro pessoal, há meses, mas por alguma razão tem sido sempre adiado.

Gostaria de relembrar que, em 2011, quando éramos cinco os pré-candidatos a prefeito de São Paulo, você convocou os demais para dialogarem com você no Instituto Lula para que desistissem em favor de Fernando Haddad. Imagino que tenha avaliado que não precisava conversar comigo.

Há cerca de duas semanas, conforme soube pela imprensa, houve reunião no Instituto Lula, em que estiveram presentes os presidentes nacional e estadual, Rui Falcão e Edinho Silva, outros importantes dirigentes e pelo menos oito prefeitos do PT. Não fui convidado, embora ali se tenha discutido a campanha de 2014, os procedimentos para a escolha do nosso candidato ao governo de São Paulo, ao Senado e possíveis coligações. Segundo o divulgado, os presentes teriam solicitado à direção organizar uma pesquisa de opinião para saber qual o candidato a governador mais viável. Ademais, cogitou-se a possibilidade de que eu pudesse ser candidato a deputado federal para fortalecer a legenda do PT, com a informação de que caberia a você convencer-me desta alternativa.

Considero justo que o PT me aponte como candidato ao Senado. Por uma questão de respeito à minha contribuição para o PT desde a sua fundação e também por ter sido eleito por votações cada vez maiores para o Senado, em 1990 com 4.229.706 votos, 30%; em 1998 com 6.718.463, 43,07%; em 2006, com 8.986.803 votos, 47,82%.

Poderemos fazer uma prévia aberta a todos os filiados e eleitores interessados em participar como mais e mais se faz em todos os países democráticos. Lembro que José Dirceu certa vez defendeu que nossas prévias deveriam ser abertas a todos os eleitores.

Há apenas uma hipótese de eu abrir mão de disputar o Senado em 2014: caso você queira disputar. Por respeito aos seus oito anos como Presidente da República, por já ter disputado uma prévia com você em 2002 e você ter ganho por larga margem.

Sempre observei que você acompanhou com grande interesse tudo o que se passa ali, pois sempre comentou conosco que costumava assistir à TV Senado. Acredito que considere algo positivo tornar-se Senador”.

Eduardo Matarazzo Suplicy

 
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Publicado por em 05/06/2013 em Federal, opinião, Política

 

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