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3 anos depois: novas cidades, velhos problemas.

Publicado no Portal Cada Minuto

Há dois anos um grupo de blogueiros esteve em algumas das cidades atingidas pelas enchentes de 2010. Cerca de 19 municípios foram atingidos pela enxurrada provocada pelas fortes chuvas que elevaram a níveis catastróficos a vazão da água dos rios mundaú e paraíba ocasionando um dos piores desastres naturais que se tem notícia em Alagoas.

Cheias, fortes chuvas e desastres não são novidades no nordeste e em vários outros estados brasileiros, principalmente na época das chuvas, já que inverno por essas bandas não é estação que facilmente se identifique.

Em 2010 a enxurrada arrastou tudo o que viu pela frente: casas, lojas, prédios públicos, bibliotecas, correios, lotéricas, postos de saúde, escolas, tudo. Pessoas foram arrastadas, perderam-se e foram encontradas milhares de quilômetros de distância de casa, outros nunca foram encontrados. Alguns com vida e ao menos 27 mortos.

A mobilização local, regional e nacional foi incrível, doações vieram de todos os lugares do país e do mundo. Barracas holandesas foram doadas aos desabrigados para que pudessem aguardar por suas novas residências prometidas pelo poder público ao abrigo do sol e da chuva.

O tempo passou e, 1 ano depois, um grupo de blogueiros despretensiosamente resolveu visitar alguns acampamentos para ver como viviam os flagelados de um dos maiores desastres que Alagoas já enfrentou.

Os bolsões de miséria que foram identificadas naqueles acampamentos, haviam se transformado em alvos fortes para bandidos e traficantes. Crianças não tinham escola e nem lazer de qualidade, adultos não tinham emprego, qualificação e nem esperança. Nos municípios em que a situação dos acampamentos era pior as necessidades eram básicas: água limpa, comida, banheiro. Já nos municípios onde os acampamentos eram mais bem arrumados e orientados pelo governo municipal, as necessidades eram individuais, de: privacidade, identidade, propriedade, guarda familiar e independência.

Nasceu a campanha virtual #UmAnoEnchentesAL com a única intenção de dar visibilidade e chamar a atenção da sociedade para as condições como viviam homens, mulheres, crianças e idosos naqueles acampamentos tão generosamente montados com o apoio holandês.

A mobilização obteve sucesso, respeitando intervalos regulares, cada um dos blogueiros publicou sua impressão sobre a viagem, as pessoas, a infraestrutura, a surpresa, o caos e o abandono. Por semanas aquelas pessoas não caíram no esquecimento, até que a produção do Fantástico (Rede Globo), alguns meses depois, esteve nos mesmos acampamentos e constataram o que não tivemos coragem de dizer: pareciam viver num campo de refugiados.

O choque provocado pela imprensa profissional e maior meio de comunicação do Brasil fez com que ações mais efetivas fossem adotadas. Um termo de ajustamento de conduta foi firmado entre governo estadual, municípios, Caixa Econômica Federal, Ministério Público e os moradores para que as casas fossem entregues num novo prazo.

A partir de então ações cada vez mais midiáticas foram adotadas. Primeiro para tirar aquelas pessoas das lonas holandesas, onde viviam na sujeira, lama e calor, a depender do clima, mas sem qualquer conforto, individualidade ou decência. Depois o problema foram os cadastrados, listas confusas e erradas eram rebatidas e refeitas, até que mais casas iam sendo entregues.

A cada solenidade de entrega de casas mais e mais políticos apareciam para se vangloriar do momento e parecerem – aos olhos dos humildes eleitores beneficiados – beneméritos generosos e solidários.

Nesta segunda-feira (17) mais um ano se completa desde o desastre. Aqueles que perderam suas vidas, as de familiares e amigos não tiveram o que receber de volta. O desastre foi fatal e impossível de remediar. Os danos materiais sofridos pelos pobres e desvalidos foram – como deviam ser – suplantados pelo estado naquilo que era possível.

Mas três anos depois da tragédia de 2010, muitos alagoanos continuam sem documentos, sem identidade, sem história. Valendo-se de água de péssima qualidade, em meio ao lixo que se acumula. Os anseios por casas estão “quase” completamente satisfeitos, mas muitos ainda não receberam seus imóveis.

Os comerciantes continuam sem seus pontos comerciais, os empregos sumiram, a renda estagnou e os bolsões de miséria só mudaram de lugar – saíram das lonas e estão em planícies metodicamente organizadas, como se ali vivessem “soldadinhos idênticos de chumbo” e não uma sociedade que vivia a seu modo daquilo que produzia.

Se o governo estadual se vangloria hoje de ser o estado com o maior avanço no projeto de reconstrução dos municípios devastados, deveria reservar espaço proporcional em sua propaganda institucional ao tamanho da importância que o Programa Fantástico (Rede Globo) teve ao despertar todo o país para as mazelas que acometiam aqueles flagelados, os mesmos que o Brasil mobilizado ajudou a superar a tragédia.

#TrêsAnosEnchentesAL Se não fosse o Fantástico, quantas casas teriam sido reconstruídas?

 
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Publicado por em 18/06/2013 em CadaMinuto

 

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Perdão de dívidas, prioridades invertidas

Publicado no Portal Cada Minuto

Há algum tempo numa reunião de prefeitos alguém disse: “fazer política com o dinheiro dos outros é muito fácil”. O indignado referia-se à política federal de redução de IPI para incentivar o consumo de determinados produtos pelos próprios brasileiros, o que acabou levando ao atual sofrimento de muitos municípios por conta da diminuição do FPM – Fundo de Participação dos Municípios, a principal fonte de renda de pequenas cidades.

Justificando-se em políticas externas e na importância de manter relações especiais com a África, o governo federal anunciou neste fim de semana – diretamente da África – a anulação de 900 milhões de dólares (cerca de 1,9 bilhões de reais) em dívidas de 12 países africanos. A ideia do governo brasileiro é que como a economia desses países tem se fortalecido, o perdão das dívidas poderá beneficiar o Brasil nas relações comerciais futuras. Aposta legítima, mas aposta.

O Brasil já emprestou dinheiro ao mundo inteiro, só através do FMI (Fundo Mundial Internacional) foram 10 bilhões de dólares (cerca de 21 bilhões de reais). No mesmo ano o Brasil emprestou 5 bilhões de dólares à Argentina.

Já é uma realidade o crédito de mais de 170 milhões de dólares (cerca de 350 milhões de reais) para a reforma e ampliação de aeroportos cubanos, através da Odebrecht (ironicamente a construtora de Norberto Odebrecht, que se tornou forte durante o Regime Militar – o maior carrasco da turma do governo federal –, principalmente por negócios suspeitos feitos com ACM – Antônio Carlos Magalhães – na Bahia). Isso depois de já ter financiado a reforma do aeroporto de Havana e estar em negociações avançadas para a importação de médicos cubanos (hoje a exportação de serviços médicos já rendem para Cuba 6 bilhões de dólares por ano).

Recentemente fontes governamentais reconheceram o “mau negócio” realizado em Pasadena (Texas/EUA), ocasião em que o Brasil desembolsou de mais de 1,1 bilhão de dólares (cerca de 2,3 bilhões de reais) por refinaria de petróleo, mas que acabou se revelando num verdadeiro prejuízo. Outros “maus negócios” já foram feitos pela Petrobrás, como a refinaria de Abreu e Lima (PE/BRA), cujo prejuízo já soma mais de 15 bilhões de dólares, e na verdade está mais para golpe dos “amigos” venezuelanos através da estatal PDVSA.

Números nunca foram meu forte e o governo brasileiro tem dado mostras de que sabe administrar a economia local – pelo menos com a moeda estável e forte –, longe de mim censurar a política externa do PT ou os investimentos que têm sido feito ao longo dos últimos 10 anos. Entretanto, o que me causa desconforto são a benevolência e o olhar tão compreensível dos credores brasileiros para com os devedores estrangeiros, enquanto milhares de sertanejos nordestinos estão correndo risco de perderem tudo – o que é quase nada.

Não é novidade o tamanho das dívidas que pequenos proprietários rurais contraíram com diversos bancos brasileiros, ao longo de algumas décadas, empréstimos estes concedidos com o aval do governo federal. Sabe-se, também, que muitos desses empréstimos não foram concedidos durante o governo atual e nem o anterior, mas estamos falando de pequenos proprietários de terra, produtores rurais, que querem verdadeiramente pagar suas dívidas, mas que não conseguem. Primeiro por causa dos juros estratosféricos; segundo, por conta da seca recorrente.

Emprestar sem capacitar para o enfrentamento da seca foi um erro absurdo dos governos do passado e dos que se seguiram. A atual estiagem já era sabida pelo governo federal desde o início de 2010, e ainda assim medidas eficazes para amainar o problema não foram adotadas.

Só neste ano de 2013 que o primeiro trajeto do canal do sertão foi entregue. Canal este que é cogitado desde as andanças de D. Pedro II pelo sertão nordestino e que muito foi prometido pelos políticos ao longo de tantos anos. Mas a pobreza sertaneja e a dependência desse povo saem muito mais lucrativo aos currais eleitorais.

Hoje os pequenos trabalhadores nordestinos correm o risco de perderem sua pequena e única propriedade por conta de empréstimos antigos e com juros exorbitantes que têm sido executados e que a seca acabou com qualquer possibilidade de pagamento.

A situação é tão incompreensível que, ao passo que o governo se fecha à possibilidade de perdoar essas dívidas, os sertanejos convivem com a ameaça de ver suas propriedades serem arrendadas – ou, simplesmente, tomadas – para que nelas seja cultivado o coco (exatamente, a chegada da água ao sertão pode viabilizar que o coco tome conta da paisagem sertaneja).

Esquecem-se das habilidades do sertanejo, esquecem-se da bacia leiteira, da criação de caprinos e bovinos e da plantação de feijão e de mandioca.

Que o governo federal continue sua política externa como bem entender, mas que não esqueça daqueles que realmente precisam de perdão das dívidas, os sertanejos.

 
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Publicado por em 28/05/2013 em CadaMinuto

 

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