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Mais informação, menos conhecimento (Llosa)

O texto a seguir foi escrito por Mário Vargas Llosa, publicado em sua coluna mensal no jornal espanhol El País em julho de 2011. Republicado em seu livro A civilização do espetáculo – uma radiografia do nosso tempo e da nossa cultura, trad. Ivone Benedetti. Rio de Janeiro: Objetiva, 2013.

Ao ler o texto a seguir lembrei-me de uma orientação médica que diz que devemos exercitar o cérebro como devemos exercitar qualquer outro músculo do corpo, pois, caso contrário, ele atrofia, acomoda e fica flácido. Parece que o Llosa entende da mesma forma. Estaríamos mesmo indispostos a nos divertir por meio de esforço intelectual e mental?

 

Mais informação, menos conhecimento

Por Mário Vargas Llosa

Nicholas Carr estudou Literatura no Dartmouth College e na Universidade de Harvard, e tudo indica que na juventude foi um leitor voraz de bons livros. Depois, tal como ocorreu com toda a sua geração, descobriu o computador, a internet, os prodígios da grande revolução informática de nosso tempo, e não só dedicou boa parte da vida a usar todos os serviços on-line e a navegar o dia inteiro pela rede, como também se tornou um profissional e especialista nas novas tecnologias da comunicação, sobre as quais escreveu extensamente em prestigiosas publicações dos Estados Unidos e da Inglaterra.

Um belo dia ele descobriu que tinha deixado de ser bom leitor e, quase quase, leitor. Sua concentração se dissipava depois de uma ou duas páginas de um livro; e, sobretudo se o que lia era complexo e demandava muita atenção e reflexão, surgia em sua mente algo como uma recôndita rejeição a continuar com aquele esforço intelectual. É assim que ele conta: “Perco a calma e o fio da meada, começo a pensar em outra coisa para fazer. Sinto-me como se estivesse sempre arrastando meu cérebro desconcentrado de volta para o texto. A leitura profunda, que costumava vir naturalmente, transformou-se em esforço.”

Preocupado, tomou uma decisão radical. No final de 2007, ele e a esposa abandonaram suas ultramodernas instalações em Boston e foram morar numa cabana das montanhas do Colorado, onde não havia telefonia móvel, e a internet era melhor que não aparecesse. Ali, ao longo de dois anos, escreveu o polêmico livro que o tornou famoso. Intitula-se em inglês The Shallows: What the Internet is Doing to Our Brains e em espanhol: Superficiales: ¿Qué está haciendo Internet con nuetras mentes? (Taurus, 2011). Acabo de lê-lo de uma tacada só e fiquei fascinado, assustado e entristecido. (No Brasil: A geração superficial – o que a internet está fazendo com nossos cérebros, trad. Mônica Gagliotti Fortunato Friaça. Rio de Janeiro: Agir, 2011.)

Carr não é um renegado da informática, não se tornou um ludista contemporâneo que gostaria de acabar com todos os computadores, de modo algum. Em seu livro reconhece a extraordinária contribuição que serviços como Google, Twitter, Facebook ou Skype dão à informação e à comunicação, o tempo que poupam, a facilidade com que uma imensa quantidade de seres humanos podem compartilhar experiências, os benefícios que tudo isso acarreta às empresas, à investigação científica e ao desenvolvimento econômico das nações.

Mas tudo isso tem um preço e, em última análise, significará uma transformação tão grande em nossa vida cultural e no modo de funcionamento do cérebro humano quanto foi a descoberta da imprensa por Johannes Gutenberg no século XV, que generalizou a leitura de livros, até então confinada a uma minoria insignificante de clérigos, intelectuais e aristocratas. O livro de Carr é uma reivindicação das teorias do agora esquecido Marshall McLuhan, de quem ninguém fez muito caso quando, há mais de meio século, ele afirmou que os meios não são nunca meros veículos de um conteúdo, que eles exercem uma influência subliminar sobre este, e que, no longo prazo, modificam nossa maneira de pensar e agir. McLuhan referia-se sobretudo à televisão, mas a argumentação do livro de Carr e os abundantes experimentos e testemunhos citados para apoiá-la indicam que semelhante tese tem extraordinária atualidade no que se refere ao mundo da internet.

Os defensores recalcitrantes do software alegam que se trata de uma ferramenta que está a serviço de quem a usa e, evidentemente, há abundantes experimentos que parecem corroborar essa afirmação, desde que essas provas sejam feitas no campo da ação, em que os benefícios dessa tecnologia são indiscutíveis: quem poderia negar que representa um avanço quase milagroso o fato de, agora, em poucos segundos e com um pequeno clique do mouse, um internauta conseguir uma informação que há poucos anos exigia semanas ou meses de consultas em biblioteca e a especialistas? Mas também há provas concludentes de que, ao deixar de se exercitar por contar com o arquivo infinito posto ao seu alcance por um computador, a memória de uma pessoa se entorpece e debilita tal como os músculos que deixam de ser usados.

Não é verdade que a internet é apenas uma ferramenta. É um utensílio que passa a ser um prolongamento de nosso próprio corpo, de nosso próprio cérebro, que, também de maneira discreta, vai se adaptando pouco a pouco a esse sistema de informa-se e de pensar, renunciando devagar às funções que esse sistema desempenha por ele e, às vezes, melhor que ele. Não é uma metáfora poética dizer que a “inteligência artificial” que está a seu serviço suborna e sensualiza nossos órgãos pensantes, que, de maneira paulatina, vão se tornando dependentes dessas ferramentas e, por fim, seus escravos. Para que manter fresca e ativa a memória se toda ela está armazenada em algo que um programador de sistemas chamou de “a melhor e maior biblioteca do mundo”? E para que aguçar a atenção se, apertando as teclas adequadas, as lembranças de que necessito vêm até mim, ressuscitadas por essas diligentes máquinas?

Não é estranho, por isso, que alguns fanáticos da web, como o professor Joe O’Shea, filósofo da Universidade da Flórida, afirmem: “Sentar-se e ler um livro de cabo a rabo não tem sentido. Não é um bom uso de meu tempo, já que posso ter toda a informação que quiser com maior rapidez através da web. Quando alguém se torna caçador experiente na internet, os livros são supérfluos.” O que há de atroz nessa frase não é a afirmação final, mas o fato de o filósofo em questão acreditar que as pessoas leem livros só para “informar-se”. Esse é um dos estragos que vício frenético na telinha pode causar. Daí a patética confissão da doutora Katherine Hayles, professora de Literatura da Universidade de Duke: “Já não consigo fazer meus alunos lerem livros inteiros.”

Esses alunos não tem culpa de serem agora incapazes de ler Guerra e paz ou Dom Quixote. Acostumados a pescar informações nos computadores, sem precisarem fazer esforços prolongados de concentração, foram perdendo o hábito e até a faculdade de se concentrar e se condicionaram a contentar-se com esse borboleteio cognitivo a que a rede os acostuma, com suas infinitas conexões e saltos para acréscimos e complementos, de modo que ficaram de certa forma vacinados contra o tipo de atenção, reflexão, paciência e prolongada dedicação àquilo que lê, que é a única maneira de ler, com prazer, a grande literatura. Mas não acredito que seja só a literatura que a internet tornou supérflua: toda obra de criação gratuita, não subordinada a utilização pragmática, fica fora do tipo de conhecimento e cultura que a web propicia. Sem dúvida esta armazenará com facilidade Proust, Homero, Popper e Platão, mas dificilmente suas obras terão muitos leitores. Para que ter o trabalho de lê-las se no Google posso encontrar sínteses simplificadas, claras e amenas daquilo que foi inventado naqueles livrinhos arrevesados que os leitores pré-históricos liam?

A revolução da informação está longe de terminar. Ao contrário, nesse campo surgem a cada dia novas possibilidades e novos sucessos, e o impossível vai retrocedendo velozmente. Devemos ficar alegres? Se o tipo de cultura que está substituindo a antiga nos parecer um progresso, sem dúvida sim. Mas devemos nos preocupar se esse progresso significar aquilo que um erudito estudioso dos efeitos da internet em nossos cérebros e em nossos costumes, Van Nimwegen, deduziu depois de um de seus experimentos: que deixar por conta dos computadores a solução de todos os problemas cognitivos reduz “a capacidade do cérebro de construir estruturas estáveis de conhecimentos.” Em outras palavras: quanto mais inteligente nosso computador, mais burros seremos.

Talvez haja exageros no livro de Nicholas Carr, como sempre ocorre com os argumentos que defendem teses controvertidas. Careço de conhecimentos neurológicos e de informática para julgar até que ponto são confiáveis as provas e as experiências científicas descritas em seu livro. Mas este me dá a impressão de ser rigoroso e sensato, uma advertência que – não nos enganemos – não será ouvida. Isso significa, se ele tiver razão, que a robotização de uma humanidade organizada em função da “inteligência artificial” é irrefreável. A menos, claro, que um cataclismo nuclear, por obra de uma acidente ou uma ação terrorista, nos faça regredir às cavernas. Então, seria preciso começar de novo, para ver se dessa segunda vez fazemos as coisas melhor.

Fonte: El País

 
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Publicado por em 09/01/2014 em Literatura, Variedade

 

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Um filme imperdível

Ainda está em cartaz o filme “A Caça”, de Thomas Vinterberg. O cineasta dinamarquês conseguiu transferir para as telonas o drama de um professor de escolinha infantil que precisou enfrentar o ódio de toda uma cidadezinha do interior da Dinamarca que o pré-julgou e pré-condenou por abuso infantil.

O filme tem um ritmo muito bom, mas o que há de melhor é sua capacidade de despertar nas pessoas a importância da busca pela verdade real, a verdade dos fatos e não se satisfazer com as similitudes das versões.

A Caça é um grande alerta para a sociedade moderna que tem se bastado e se alimentado cada vez mais com o que há de pior e vil nas relações humanas, que precisa escarafunchar a intimidade alheia e revelar segredos sórdidos de terceiros com o único e raso objetivo de ser entretida. Além de alertar também à imprensa, os jornalistas e formadores de opinião de uma forma geral, por mais que o filme não tenha esse enfoque, mas a lição que fica é bem clara nesse sentido: a responsabilidade com a apuração, com a informação, com a notícia deve nortear os passos daqueles que informam as pessoas.

A responsabilidade sobre a reputação de alguém é igual à responsabilidade sobre a vida desta pessoa. A depender do caso e da repercussão, as consequências podem ser devastadores e INVARIAVELMENTE são irreversíveis. O filme é capaz de mostrar até onde a rejeição social pode levar um inocente e, pior, ele nunca voltará a ter a “fama” de antes.

Sobre o tema vale pesquisar o “caso da Escola Base de São Paulo”, ocorrido em 1994, e que, mesmo depois de 20 anos, os seis acusados de abuso infantil continuam no ostracismo, jamais conseguiram se recuperar, e a indenização, que o estado de São Paulo lhe deve, nunca foi paga.

Acusados injustamente e expostos à mídia irresponsavelmente, os vilões revelaram-se os verdadeiros mocinhos, mas a sociedade jamais os recebeu novamente e, hoje, ainda marginalizados, os seis tentam sobreviver e superar o trauma do passado.

Confira mais Aqui!

 

A Caça


Arte Pajuçara: 21h (exceto segunda) (legendado)

Lucas (Mads Mikkelsen) trabalha em uma creche. Boa praça e amigo de todos, ele tenta reconstruir a vida após um divórcio complicado, no qual perdeu a guarda do filho. Tudo corre bem até que, um dia, a pequena Klara (Annika Wedderkopp), de apenas cinco anos, diz à diretora da creche que Lucas lhe mostrou suas partes íntimas. Klara na verdade não tem noção do que está dizendo, apenas quer se vingar por se sentir rejeitada em uma paixão infantil que nutre por Lucas. A acusação logo faz com que ele seja afastado do trabalho e, mesmo sem que haja algum tipo de comprovação, seja perseguido pelos habitantes da cidade em que vive.

Elenco: Mads Mikkelsen, Thomas Bo Larsen, Annika

Direção: Thomas Vinterberg

Gênero: Drama

 
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Publicado por em 03/01/2014 em Cinema, Variedade

 

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Restaurante Forte Maurício de Nassau na Record

Ainda do ano passado…

50 por 1 jacaréNo dia 29/12/2013 estreou a série Águas do Brasil, com Álvaro Garnero, para o Programa 50 por 1, da Record (com reapresentações na Record News). No segundo episódio da série, “Foz do São Francisco”, o apresentador desembarcou na foz do Velho Chico, aqui, em Alagoas, e “subiu” o rio em direção aos canyons.

Em Piaçabuçu participou de uma corrida de jangadas, que ele ganhou ao final (claro!) e depois partiu para Penedo. Em Penedo, como não poderia deixar de ser, apresentou nossa principal iguaria: a moqueca de jacaré.

O prato que é típico da região foi apresentado em detalhes no programa. O restaurante escolhido foi o Forte Maurício de Nassau, conhecido pela forma especial como a moqueca é preparada, mas também pelo divino pudim de leite e pela variedade de “cachacinhas de frutas”.

Além da iguaria, o programa mostrou a simpatia do meu querido tio Gustavo Lisboa – tio, sim! –, proprietário do restaurante, e também o fantástico visual que se tem do rio a partir do restaurante, aliás, quem não assistiu ao programa, confira e perceba. O que se vê parece um quadra, mas não é. É, simplesmente, o por do sol mais lindo do mundo!

Quem perdeu pode conferir o episódio completo aqui!

50 por 1 São Francisco

 

Serviço:
Restaurante Forte Maurício de Nassau
Praça Barão de Penedo, nº 89, Penedo, AL, CEP: 57200-000
Contato: (82) 3551-3646/ 9981-7047
 
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Publicado por em 02/01/2014 em Cultura, Variedade

 

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Que venha 2014!

Dois meses sem postar no “Palavras ao Vento” e sentindo-me extremamente displicente com aquele que é meu xodó. Vou tentar me redimir começando o ano com o “pé direito” e programando publicações diárias – ou mais atualizadas possível.

 Republicado do perfil pessoal do Facebook

Não posso dizer que esse ano de 2013 tenha sido diferente. Ri, chorei, conquistei, perdi, fiz amigos, perdi quem julguei ser amigo, cresci, caí, comi muito (preciso perder 6kg), bebi um pouco menos (meta sendo batida), li menos, bem menos; trabalhei muito, bem muito; escrevi menos, tive menos tempo, caminhei menos, mas ganhei mais amigos, ganhei mais conhecimento, ganhei mais carinho, ganhei mais amor, ganhei o verdadeiro amor…

Ano de surpresas, ano de revelações, ano de superações, ano de muitas apurações, ano de crescimento, ano de viagens, ano de superlativos…

Em 2013 vivi tantas coisas legais, muitas que se repetiram ao longo do ano, sinto-me mais madura, sinto-me pronta…

Novas metas estabelecidas, novos passos planejados…

Que 2014 seja exatamente como 2013 foi, lindo, repleto de amigos, os melhores, os mais compreensivos, os mais debochados, os mais queridos.

Meu orgulho é ter amigos, melhores amigos e não meio-amigos…

Aos verdadeiros, tudo!

 
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Publicado por em 01/01/2014 em Facebook, Variedade

 

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Vá de bike!

 

Em tempos de manifestações e de agravamento dos transtornos no trânsito, a campanha “vá de bike” ganha maior apelo. Aos que não sabem, há um movimento mundial para incentivar a mudança dos hábitos modernos. Assim como o exercício físico diário, a alimentação mais balanceada e regrada, também o combate às causas do estresse trocando o carro por bicicleta nos trajetos convenientes.

Para tanto, tem havido maior consciência social principalmente em relação aos benefícios à saúde do adepto às duas rodas, mas também é uma forma de melhorar o convívio urbano, o trânsito e, até, a poluição.

Em Maceió há o movimento bicicletada que se “propõem a lutar pela inclusão da bicicleta no trânsito, pela melhoria no transporte público, pela construção e manutenção de passeios públicos que atendam as necessidades de pedestres, pelo respeito no trânsito, por uma cidade mais para as pessoas e menos para os carros”.

O movimento tem chamado a atenção por participar efetivamente de audiências públicas para melhoria do trânsito e construção de ciclovias, buscando os meios legais e políticos para conseguir maior segurança e valorização do ciclista.

Logo

Para saber mais a respeito recomendo o site Bicicletada de Maceió.

 
 

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Ajude uma criança – há muitos outros jeitos

Quantas vezes nos pegamos ignorando uma criança no semáforo ou nas ruas?

Este vídeo educativo feito pela ONG Casa do Zezinho traz um importante e tocante alerta. Confiram e me digam o que sentiram:

Afinal, realmente há muitos outros jeitos de ajudar uma criança, encontre um e ajude também!!!

 
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Publicado por em 17/06/2013 em Variedade

 

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Palavras ao Vento está aniversariando, obrigada aos leitores!

E hoje é dia de aniversário do Palavras ao Vento… Dois anos que voaram e que muito me ensinaram… nesses últimos anos aprendi a confiar mais em mim, a acreditar mais no outro e a prezar pelo desconhecido.

O tempo passou e amizades nasceram, ressurgiram e muito conhecimento foi adquirido. Vocês, leitores, me ensinam diariamente o que lhes agrada, atrai e cativa…

Por vocês me animo a escrever, por vocês me inspiro… O amanhã nos reserva surpresa, e a minha certeza é que o tempo que passamos juntos nesses dois anos já são inesquecíveis.

Aos blogueiros, companheiros de postagens, desejo muita criatividade e entusiasmo por seus blogs, pois o meio é fantástico para disseminarmos nossas idéias e nossas visões de mundo, é disso que é feita a democracia e cada texto que publicamos contribuímos um pouco com uma sociedade menos conformista e mais disposta a lutar pela realidade que deseja.

Aos leitores peço paciência e compreensão, agradeço-lhes o carinho, a generosidade, a troca de experiências e, principalmente, a atenção…

Entremos no terceiro ano do Palavras ao Vento com muitas histórias, notícias, comentários e opiniões. Em breve teremos mais “Diário de Viagem”, edição 2013. Conto com sua leitura e seu comentário, tenha certeza que é você quem alimenta esse espaço diariamente.

2 anos

 
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Publicado por em 31/05/2013 em Variedade

 

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