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Arquivo da categoria: Literatura

Mais informação, menos conhecimento (Llosa)

O texto a seguir foi escrito por Mário Vargas Llosa, publicado em sua coluna mensal no jornal espanhol El País em julho de 2011. Republicado em seu livro A civilização do espetáculo – uma radiografia do nosso tempo e da nossa cultura, trad. Ivone Benedetti. Rio de Janeiro: Objetiva, 2013.

Ao ler o texto a seguir lembrei-me de uma orientação médica que diz que devemos exercitar o cérebro como devemos exercitar qualquer outro músculo do corpo, pois, caso contrário, ele atrofia, acomoda e fica flácido. Parece que o Llosa entende da mesma forma. Estaríamos mesmo indispostos a nos divertir por meio de esforço intelectual e mental?

 

Mais informação, menos conhecimento

Por Mário Vargas Llosa

Nicholas Carr estudou Literatura no Dartmouth College e na Universidade de Harvard, e tudo indica que na juventude foi um leitor voraz de bons livros. Depois, tal como ocorreu com toda a sua geração, descobriu o computador, a internet, os prodígios da grande revolução informática de nosso tempo, e não só dedicou boa parte da vida a usar todos os serviços on-line e a navegar o dia inteiro pela rede, como também se tornou um profissional e especialista nas novas tecnologias da comunicação, sobre as quais escreveu extensamente em prestigiosas publicações dos Estados Unidos e da Inglaterra.

Um belo dia ele descobriu que tinha deixado de ser bom leitor e, quase quase, leitor. Sua concentração se dissipava depois de uma ou duas páginas de um livro; e, sobretudo se o que lia era complexo e demandava muita atenção e reflexão, surgia em sua mente algo como uma recôndita rejeição a continuar com aquele esforço intelectual. É assim que ele conta: “Perco a calma e o fio da meada, começo a pensar em outra coisa para fazer. Sinto-me como se estivesse sempre arrastando meu cérebro desconcentrado de volta para o texto. A leitura profunda, que costumava vir naturalmente, transformou-se em esforço.”

Preocupado, tomou uma decisão radical. No final de 2007, ele e a esposa abandonaram suas ultramodernas instalações em Boston e foram morar numa cabana das montanhas do Colorado, onde não havia telefonia móvel, e a internet era melhor que não aparecesse. Ali, ao longo de dois anos, escreveu o polêmico livro que o tornou famoso. Intitula-se em inglês The Shallows: What the Internet is Doing to Our Brains e em espanhol: Superficiales: ¿Qué está haciendo Internet con nuetras mentes? (Taurus, 2011). Acabo de lê-lo de uma tacada só e fiquei fascinado, assustado e entristecido. (No Brasil: A geração superficial – o que a internet está fazendo com nossos cérebros, trad. Mônica Gagliotti Fortunato Friaça. Rio de Janeiro: Agir, 2011.)

Carr não é um renegado da informática, não se tornou um ludista contemporâneo que gostaria de acabar com todos os computadores, de modo algum. Em seu livro reconhece a extraordinária contribuição que serviços como Google, Twitter, Facebook ou Skype dão à informação e à comunicação, o tempo que poupam, a facilidade com que uma imensa quantidade de seres humanos podem compartilhar experiências, os benefícios que tudo isso acarreta às empresas, à investigação científica e ao desenvolvimento econômico das nações.

Mas tudo isso tem um preço e, em última análise, significará uma transformação tão grande em nossa vida cultural e no modo de funcionamento do cérebro humano quanto foi a descoberta da imprensa por Johannes Gutenberg no século XV, que generalizou a leitura de livros, até então confinada a uma minoria insignificante de clérigos, intelectuais e aristocratas. O livro de Carr é uma reivindicação das teorias do agora esquecido Marshall McLuhan, de quem ninguém fez muito caso quando, há mais de meio século, ele afirmou que os meios não são nunca meros veículos de um conteúdo, que eles exercem uma influência subliminar sobre este, e que, no longo prazo, modificam nossa maneira de pensar e agir. McLuhan referia-se sobretudo à televisão, mas a argumentação do livro de Carr e os abundantes experimentos e testemunhos citados para apoiá-la indicam que semelhante tese tem extraordinária atualidade no que se refere ao mundo da internet.

Os defensores recalcitrantes do software alegam que se trata de uma ferramenta que está a serviço de quem a usa e, evidentemente, há abundantes experimentos que parecem corroborar essa afirmação, desde que essas provas sejam feitas no campo da ação, em que os benefícios dessa tecnologia são indiscutíveis: quem poderia negar que representa um avanço quase milagroso o fato de, agora, em poucos segundos e com um pequeno clique do mouse, um internauta conseguir uma informação que há poucos anos exigia semanas ou meses de consultas em biblioteca e a especialistas? Mas também há provas concludentes de que, ao deixar de se exercitar por contar com o arquivo infinito posto ao seu alcance por um computador, a memória de uma pessoa se entorpece e debilita tal como os músculos que deixam de ser usados.

Não é verdade que a internet é apenas uma ferramenta. É um utensílio que passa a ser um prolongamento de nosso próprio corpo, de nosso próprio cérebro, que, também de maneira discreta, vai se adaptando pouco a pouco a esse sistema de informa-se e de pensar, renunciando devagar às funções que esse sistema desempenha por ele e, às vezes, melhor que ele. Não é uma metáfora poética dizer que a “inteligência artificial” que está a seu serviço suborna e sensualiza nossos órgãos pensantes, que, de maneira paulatina, vão se tornando dependentes dessas ferramentas e, por fim, seus escravos. Para que manter fresca e ativa a memória se toda ela está armazenada em algo que um programador de sistemas chamou de “a melhor e maior biblioteca do mundo”? E para que aguçar a atenção se, apertando as teclas adequadas, as lembranças de que necessito vêm até mim, ressuscitadas por essas diligentes máquinas?

Não é estranho, por isso, que alguns fanáticos da web, como o professor Joe O’Shea, filósofo da Universidade da Flórida, afirmem: “Sentar-se e ler um livro de cabo a rabo não tem sentido. Não é um bom uso de meu tempo, já que posso ter toda a informação que quiser com maior rapidez através da web. Quando alguém se torna caçador experiente na internet, os livros são supérfluos.” O que há de atroz nessa frase não é a afirmação final, mas o fato de o filósofo em questão acreditar que as pessoas leem livros só para “informar-se”. Esse é um dos estragos que vício frenético na telinha pode causar. Daí a patética confissão da doutora Katherine Hayles, professora de Literatura da Universidade de Duke: “Já não consigo fazer meus alunos lerem livros inteiros.”

Esses alunos não tem culpa de serem agora incapazes de ler Guerra e paz ou Dom Quixote. Acostumados a pescar informações nos computadores, sem precisarem fazer esforços prolongados de concentração, foram perdendo o hábito e até a faculdade de se concentrar e se condicionaram a contentar-se com esse borboleteio cognitivo a que a rede os acostuma, com suas infinitas conexões e saltos para acréscimos e complementos, de modo que ficaram de certa forma vacinados contra o tipo de atenção, reflexão, paciência e prolongada dedicação àquilo que lê, que é a única maneira de ler, com prazer, a grande literatura. Mas não acredito que seja só a literatura que a internet tornou supérflua: toda obra de criação gratuita, não subordinada a utilização pragmática, fica fora do tipo de conhecimento e cultura que a web propicia. Sem dúvida esta armazenará com facilidade Proust, Homero, Popper e Platão, mas dificilmente suas obras terão muitos leitores. Para que ter o trabalho de lê-las se no Google posso encontrar sínteses simplificadas, claras e amenas daquilo que foi inventado naqueles livrinhos arrevesados que os leitores pré-históricos liam?

A revolução da informação está longe de terminar. Ao contrário, nesse campo surgem a cada dia novas possibilidades e novos sucessos, e o impossível vai retrocedendo velozmente. Devemos ficar alegres? Se o tipo de cultura que está substituindo a antiga nos parecer um progresso, sem dúvida sim. Mas devemos nos preocupar se esse progresso significar aquilo que um erudito estudioso dos efeitos da internet em nossos cérebros e em nossos costumes, Van Nimwegen, deduziu depois de um de seus experimentos: que deixar por conta dos computadores a solução de todos os problemas cognitivos reduz “a capacidade do cérebro de construir estruturas estáveis de conhecimentos.” Em outras palavras: quanto mais inteligente nosso computador, mais burros seremos.

Talvez haja exageros no livro de Nicholas Carr, como sempre ocorre com os argumentos que defendem teses controvertidas. Careço de conhecimentos neurológicos e de informática para julgar até que ponto são confiáveis as provas e as experiências científicas descritas em seu livro. Mas este me dá a impressão de ser rigoroso e sensato, uma advertência que – não nos enganemos – não será ouvida. Isso significa, se ele tiver razão, que a robotização de uma humanidade organizada em função da “inteligência artificial” é irrefreável. A menos, claro, que um cataclismo nuclear, por obra de uma acidente ou uma ação terrorista, nos faça regredir às cavernas. Então, seria preciso começar de novo, para ver se dessa segunda vez fazemos as coisas melhor.

Fonte: El País

 
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Publicado por em 09/01/2014 em Literatura, Variedade

 

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A ambição desnuda de Gandhi

Sobre “GANDHI, ambição nua”, por Jad Adams.

A ideia principal do autor é desmistificar o mito envolvendo Mohandas Gandhi, para isso se vale de histórias que envolvem a vida pessoal do mahatma. Uma família triste, oprimida e abandonada, uma sexualidade aguçada e a exploração de jovens quando ancião.

Do meu ponto de vista o livro mitifica o homem. Acredito em todas as histórias contadas e apresentadas, e acredito na fé do homem. Gandhi, antes de ser mahatma (líder espiritual) era um homem como qualquer outro, mas com princípios e valores.

Foi casado muito jovem (conforme os costumes) e muito jovem teve que ir a Londres estudar para sustentar a família. Sua falta de aptidão para o direito fica patente no início da vida, mas seu poder de argumentação amadurece durante sua vida e muito do aprendeu na universidade é usado na resolução de entreveros que se apresentam.

A Índia era dominada pela Inglaterra e o que Gandhi viu, em suas andanças e viagens pelo mundo, era que seu povo era explorado e discriminado, entendeu que o pobre não era considerado e que os “intocáveis” não poderiam ser excluídos da vida em sociedade.

Gandhi buscou estudar, aprendeu sobre outras religiões, medicina e alimentos. Buscou teóricos e aquilo que acreditou procurou por em prática e ensinar. Gandhi, como bom hindu, buscou sua evolução espiritual, acreditou que agindo pelo bem dos outros estava trabalhando não só pela independência da índia e pelos desejos dos indianos, mas também por sua própria evolução.

Apesar de ter tido todas as oportunidades de estudos e de ter buscado na literatura estrangeira seu aperfeiçoamento e o de seu povo, Gandhi não achava que os jovens deveriam ir à Inglaterra para estudar, que deveriam adquirir seus conhecimentos na própria índia, com seu próprio povo, preservando raízes, cultura e religião.

Gandhi era um curioso sobre a medicina, os efeitos da higiene e da alimentação sobre o corpo. Acreditava que quanto melhor cuidasse do corpo e menos exigisse dele o combate a doenças, melhor seria seu desempenho espiritual. Suas ideias sobre o vegetarianismo são hoje valorizadas.

Acreditava, prioritariamente, na forca do trabalho como meio para o amadurecimento espiritual, mas no trabalho benevolente, aquele que gera benefícios para todos indiscriminadamente. Gandhi se dedicou às causas políticas e nacionais, mas também aos pobres e desvalidos.

A família para Gandhi não era sua prioridade, e isso porque acreditava que sua missão estava ligada a todos e não aos seus, sua visão era sempre na busca pela evolução espiritual, e isso pode ser interpretado como egoísta, mas ele agia pela fé. E crença é isso: não se explica, se crê. Não há como ocidentais julgarem.

Sua relação com o sexo, pelo que o livro diz, era bem perturbadora. Desde cedo se condenava pelos próprios desejos, mas, aparentemente, estes desejos passaram a tomar conta de sua vida, momento em que resolveu aboli-lo por completo. O autor esclarece que as experiências que Gandhi buscava ter com jovens virgens eram justificadas por ele mesmo como sendo essenciais para que testasse seus próprios limites, a fim de assim buscar a plenitude da alma.

A sexualidade de Gandhi vai continuar enigmática. Se havia consumação ou só contemplação também não haveremos de saber. Gandhi poderia crer realmente naquilo, mas também poderia estar se aproveitando de jovens indefesas, mas quem há de ter certeza?

Inegável que Gandhi encontrou no povo a força que precisava para encontrar o caminho para a independência da Índia, também é inegável que foi o povo que lhe deu fama nacional e internacional, sua liderança é incontestável, assim como seu carisma.

Mas como condenar uma pessoa que, ainda que possuísse interesses particulares, comportava-se buscando dar exemplos, além dos conselhos. Hoje não vemos isso com frequência.

Seu principal legado foi a não violência, Gandhi acreditava que tudo poderia ser conseguido mediante a conversa e as ações relacionadas ao próprio individuo e não de agressão ao outro. Orientando e instigando greves e violações às leis que geravam prisões, o mahatma conseguiu despertar o mundo para os problemas que afligiam os indianos, bem como para a forma como eram tratados e explorados pelos ingleses.

Suas ações e seus ensinamentos se perpetuaram e prolongaram no tempo, ainda hoje muitos se referem a ele e aos seus conselhos. Outros líderes como Martin Luther King Jr e Nelson Mandela se inspiraram em Gandhi e despertaram paixões e comoção.

Sempre que formos analisar personalidades históricas é necessário nos inserirmos no contexto histórico em que o biografado estava inserto. Inegável de tudo isso é que o mito não era uma deidade, era um homem, com defeitos e virtudes, e que por isso mesmo deve ser lembrado e estudado para que seus ensinamentos não se percam.

Seus erros não devem ser justificados, mas não devem ser julgados com os olhos de hoje, a distância histórica nos faz perder detalhes da realidade.

 
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Publicado por em 11/02/2013 em Literatura

 

Satyagraha

Quem tem boa memória lembra da operação Satyagraha da Polícia Federal, que prendeu banqueiros, diretores de bancos e investidores nos idos de 2004. A partir de tais prisões, nomes como Daniel Dantas e Naji Nahas passaram a ser recorrentes na mídia.

Tais investigações acabariam se emaranhando àquelas que levaram ao julgamento do mensalão.

Os nomes dados a tais operações são sempre muito curiosos, e não raras vezes desperta no público o interesse pela origem de nomes tão diferentes e específico.

Curiosamente, lendo um livro sobre Gandhi, na verdade uma biografia que procura mostrar um Gandhi não muito divulgado, aquele em sua vida particular e na intimidade de sua família, acabei me deparando com o termo que foi emprestado pela Polícia Federal brasileira para apelidar uma operação que buscava tornar público um emaranhado de conchavos e uma rede de corrupção que por anos tomou conta do mais alto escalão financeiro do país e acabou desbaratado em 2008.

A filosofia Satyagraha, implantada e defendida por Gandhi, visava a busca incessante pela verdade, e o caminho deveria ser pacífico, difundindo assim a ideia de não agressão.

“Há uma centelha de divindade no peito de cada ser humano. O adepto do Satyagraha (satyagrahi) tenta fazer com que essa centelha brilhe no peito de seu oponente, fazendo com que brilhe primeiro em seu próprio peito. Portanto, Satyagraha deve basear-se na verdade e no amor. O satyagrahi se sujeita ao sofrimento para que o seu oponente pense a esse respeito e que nunca lhe seja infligido. As diversas formas de não cooperação e desobediência civil, com a pronta disposição de sofrer voluntariamente as consequencias dessas ações e o jejum como último recurso, são as únicas ferramentas que o satyagrahi procura adotar para fazer com que o oponente pense e compreenda o ponto de vista do satyagrahi.”

(extraído do livro “Gandhi – ambição nua”, de Jad Adams)

 
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Publicado por em 04/02/2013 em Literatura, Variedade

 

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Mentes Perigosas: o psicopata mora ao lado

Mentes Perigosas: o psicopata mora ao lado

O livro de Ana Beatriz Barbosa Silva tem como condão instruir o leitor sobre como reconhecer e se proteger de pessoas frias, perversas, sem sentimento de culpa, que estão perto de nós.

A obra fascina pela riqueza de detalhes e pelos casos reais de comportamentos criminosos, ou não, que muito se assemelham a comportamentos psicopatas. A autora relembra constantemente que os casos citados são ilustrativos e que não necessariamente foram cometidos por psicopatas, mas por atos semelhantes à psicopatia.

Entretanto, a forma como conduz o enredo hipnotiza o leitor e alerta sobre o comportamento pessoal individual e coletivo. Interessante tomar conhecimento diretamente por uma especialista – psiquiatra – sobre as diversas nuanças sociais que nos deparamos no dia a dia, até nos aterrorizam, e que não conseguimos encontrar justificativas.

Obviamente que generalizações são dispensáveis. Os psicopatas existem, podem ser encontrados em quaisquer lugares, mas são minoria.

O alerta feito sobre o comportamento de empresários de sucesso e de políticos desonestos é bem válido. Assim como o comportamento atual da sociedade que prefere espelhar-se nas pessoas que ostentam seu “sucesso” independentemente da forma como o alcançaram, assim como o que consideram sucesso, pois hoje crêem que o TER é mais importante que o SER.

A sociedade está mesmo com seus valores deturpados e a autora arrisca a usar a expressão “A cultura psicopática está no ar”, uma vez que se tornou “démodé” agir como os mocinhos – que sofrem, mas não se corrompem e no final são felizes com a mocinha, mesmo de forma humilde – preferindo torcer por vilões, ricos e bem sucedidos financeiramente, ainda que ajam com egoísmo, maldade e esperteza.

Assim como o fato de hoje muitos se acomodarem a comportamentos de corrupção praticada por políticos baseando-se no “rouba, mas faz”, preferindo claramente nivelar por baixo o comportamento político do que assumir a responsabilidade por suas escolhas e cobrar atitudes dignas de gestores públicos.

Pensar no coletivo despretensiosamente não é algo que esteja em voga, até quando pensam no todo o fazem pensando em como se beneficiar, ações como essas só contribuem para que as mazelas sociais se perpetuem e mentes perigosas alcancem a projeção que almejam.

A autora faz uma série de recomendações e achei interessante compartilhar a última (13a): “Não se esqueça de que você possui o bem mais valioso que um ser humano pode alcançar. Você tem a sua consciência que lhe confere o dom de amar a própria vida, o planeta e a humanidade como um todo. Por isso, é tão importante desenvolver e aperfeiçoar nossa consciência. O desenvolvimento da consciência provoca experiências transformadoras em nós. Mudamos a nossa forma de ver, viver, sentir e nos relacionar com o mundo. Com o aperfeiçoamento da consciência, aumentamos a nossa capacidade de amar e, com isso, temos o privilégio de praticar o amor incondicional

 

Vale a leitura:

SILVA, Ana Beatriz B. Mentes perigosas: o psicopata mora ao lado. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008. 218p.

 
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Publicado por em 04/01/2013 em Literatura

 

A Queda

Confesso que nunca fui fã de Diogo Mainardi, o colunista de Veja e um dos debatedores do programa Manhattan Connection tem como característica principal sua capacidade incomparável em tecer críticas, em especial às políticas de esquerda (ainda que hoje não se saiba ao certo o que sejam). Seu humor ácido e sarcasmo desmedido não me atraem como leitora e nem como cidadã, por vezes um verdadeiro desserviço.

Há algumas semanas que meu pai vinha falando sobre o novo livro de Mainardi, “A Queda”. Narrativa que trata de sua luta pessoal na superação dos limites do filho, que, por erro médico, tem paralisia cerebral.

Para falar do livro eu poderia simplesmente dizer que a construção textual é incrível, que só alguém com uma inteligência e disposição literária acima da média seria capaz de enxergar o emaranhamento da vida de seu filho aos contornos de Veneza e às obras-primas mais diversas, passando por Rembandt, Marcel Proust, James Joyce, Hitler, U2 e tantos outros.

Mas acho que dizer apenas essas verdades faria de mim apenas mais uma leitora.

Mainardi vale-se de uma linguagem simples para falar das coisas que mais emocionam: arte, história, filhos e amor.

Ele supera sua intenção nítida de impressionar os admiradores de textos limpos, claros, objetivos e deslumbrantes, para naturalmente nos chocar com seu pragmatismo e amor nada meloso, fora do convencional, pelo filho que supera diariamente seus próprios limites impostos por um erro médico que lhe rendeu uma paralisia cerebral e mais de 3 milhões de euros.

Mainardi foge do lugar-comum da pena de si mesmo, da vitimização esperada, para mostrar que não é necessário ser politicamente correto para contar dramas pessoais e que seu pragmatismo “chocante” funciona muito bem na família que construiu e na história que vive.

Aprendi, ainda, a ter cuidado com o que desejamos, nossos desejos podem se tornar realidade.

 

 
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Publicado por em 17/10/2012 em Literatura

 

Um ano, uma seca, uma tragédia

Atividade acadêmica

O Quinze, de Rachel de Queiróz, é mais que um romance regionalista, consegue analisar realisticamente a sociedade da década de 10.

Baseado na severa estiagem de 1915 – ano que dá nome ao livro -, o romance procura retratar fielmente as dores, a mazela, as injustiças e as contradições da época.

O Brasil ainda estava se habituando aos novos modos republicanos, os costumes imperiais e raciais ainda aparecem, mas não roubam o espaço que a escritora dedica à problemática social que emplaca.

google

A seca no sertão nordestino – a cidade de Quixadá (CE) é onde se ambienta a maior parte do enredo – afligiu muitos cearenses, a falta de água, comida e perspectivas, acabou expulsando hordas de miseráveis pelos caminhos que levava à suposta prosperidade. Muitos, atraídos pela borracha, tentaram chegar ao norte, imaginando ser a abundância hídrica do Amazonas a única tábua de salvação.

Compreende-se que psicologicamente aqueles miseráveis se deixassem encantar pelas águas dos rios do norte, afinal, se a ausência d’água era a origem de seus problemas, a solução seria onde houvesse abundância. Entretanto, àquele tempo já havia informações de que o trabalho era penoso, pagava-se mal e já não havia seringais à disposição de posseiros.

O caminho do imigrante era sórdido, vulnerável, de mais fome e de morte. A humilhação pela qual passavam não era digna nem dos animais. Aliás, estes, por representarem dinheiro, eram muito melhor tratados. Sendo que não raras vezes os trabalhadores eram liberados de seus serviços porque os senhores da terra e do gado não poderiam alimentar a todos – reses e pessoas – preferindo manter os animais.

O romance consegue retratar com bastante realidade o drama vivido por Chico Bento e sua família, que por desistir do sofrimento na terra sertaneja busca, caminhando, alcançar terra onde houvesse trabalho para o sustento de todos e melhores perspectivas – aliás, alguma perspectiva.

Em sua jornada perde um filho morto envenenado por ter comido raiz de mandioca crua no afã da fome. Perde outro que some levado, provavelmente, – pela expectativa de algo melhor – por tropeiros viajantes. Um terceiro, o mais novo, é entregue à madrinha na esperança de um futuro melhor. A cunhada que opta por ficar diante da primeira oportunidade de emprego, acaba sendo levada à miséria pela falta de opção. Chico Bento, por fim, consegue meios solidários – provenientes da madrinha – de ir com o que lhe restou – mulher e dois filhos – para São Paulo, na promessa de oportunidade que possam suprir-lhe as necessidades.

Em paralelo se desenrola um enredo que invoca o psicológico, mas que muito ensina sobre o social, em especial sobre a condição da mulher. A sociedade de então, muito patriarcal, incentivava a dedicação da mulher ao lar, às atividades domésticas e à subserviência ao marido. Conceição, a heroína de Rachel de Queiroz, não se contenta com essa realidade e busca contrapô-la através dos estudos.

Reconhece que não há espaço para as mulheres, por isso entende que aquelas que escolhem não se dedicarem à vida familiar precisam encontrar outras preocupações, razões pelas quais viver.

O romance é digno para o estudo aprofundado do passado brasileiro, da sociedade que mais recentemente influenciou na tomada de decisões do povo, assim como ajuda a compreender o sofrimento do povo nordestino, a sua falta de opção, as razões que os levaram a empreender jornada injusta e lamuriante em busca de terra que lhe proporcionasse a sobrevivência.

A narração de Rachel de Queiróz, de forma simples, direta e muito envolvente é capaz de esclarecer muito do que hoje é vivido pelo mesmo povo. Estudar o passado nos ajuda a entender nosso presente, e a autora consegue abrir nossos olhos, hoje, para o passado que se repete interminavelmente.

 
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Publicado por em 11/10/2012 em Clássico, Literatura

 

Leituras Obrigatórias

Recentemente li três livros que adoraria recomendar aos amigos-leitores por serem fonte histórica relevante.

O primeiro é de Fernando Morais, um dos biógrafos mais consagrados do país, bem conceituado internacionalmente e que escreve como poucos, com o claro dom de manter o leitor hipnotizado por suas palavras.

Os últimos soldados da Guerra Fria” foi lançado na Bienal de Alagoas, ano passado, com a participação do escritor e despertou em muitos a curiosidade, em mim também, claro.

Assim como outros livros de Morais, essa obra prende pelo suspense, pelos detalhes, contribuindo para o imaginário do leitor não se perder na trama. É muito bom como fonte de pesquisa, mas também para que saibamos dos bastidores da relação EUA-Cuba principalmente depois da queda do Muro de Berlim.

O passado recente é mais um elemento atrativo, afinal, muitos dos fatos narrados poderão ser facilmente lembrados, mas serão também desmascarados pelo autor, que de posse de informações sigilosas de ambos os países conseguirá costurar as teias da espionagem e contra-espionagem.

Recomendo, em especial, aos amigos jornalistas.

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Outro livro que merece ser recomendado é “Curral da Morte”, do alagoano Jorge Oliveira. Confesso que essa foi a terceira vez que li a obra, texto fascinante que encanta pela riqueza de informações e, mais ainda, por se tratar de tema tão em voga.

A criminalidade em nosso estado não nasceu hoje, nem num passado recente, e por mais que muitos se satisfaçam em gritar isso para justificar as mazelas da criminalidade atual, poucos realmente sabem o que dizem e conseguem entender o quão longínquo é o nascedouro de tudo isso.

E mais, para entender nossa sociedade atual, nossa política econômica, a raiz de nossa concentração de renda, a dependência espiritual que os marginalizados em currais eleitorais ainda sentem, é indispensável que estudemos nossa história, que saibamos quem são os poderosos de hoje e, principalmente, que saibamos quem são os de ontem que trouxeram os que aí estão.

E é por tudo isso e muito mais que recomendo a leitura desse livro não só aos alagoanos, de quaisquer profissões, mas também aos “forasteiros” que se dedicam a entender essa confusa terra, seu povo e tenta, insaciavelmente, contribuir para sua melhora.

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O terceiro livro que gostaria de recomendar é “Memórias de uma Guerra Suja” que se baseia nos relatos de um matador civil (policial) a serviço do regime militar, Cláudio Guerra.

O livro é fantástico, principalmente por escancarar muitas histórias dos porões da ditadura, a participação de figurões que mandam nesse país até hoje, para desmistificar lendas, e para criar vilões, por que não?!

O livro é denso quanto as memórias do policial civil que virou pastor evangélico. No entanto, em face do grande lapso temporal alguns detalhes não podem mais ser lembrados com exatidão e por isso o trabalho dos jornalistas foi essencial para que fosse possível concluir a obra.

Como se trata de matéria muito delicada ainda e que pode acarretar em mudança na vida de muita gente, o novel pastor corre risco de ser morto a qualquer momento, e por isso a obra teve que ir ao prelo com certa urgência.

Considerando-se tais detalhes, o leitor mais acurado poderá desconsiderar alguns errinhos superficiais que em nada compromete a informação que é trazida e comprovada pelo trabalho jornalístico.

Mais aqui!

Recomendo a todos, indistintamente. Conhecer o passado do país é reconhecer o povo enquanto pessoas autodeterminadas e capazes de escolher um futuro melhor.

Leiam!!

 
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Publicado por em 05/06/2012 em Literatura