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Luis Vilar por ele mesmo – evitando a zona de conforto

03 jun

Esta é, com certeza, a mais longa das entrevistas, mas é que o Luis Vilar é alguém que eu conheço e com quem tenho debates diversos com muito entusiasmo. E, justamente por querer que o leitor do Palavras ao Vento tenha um pouco da imagem que tenho, é que resolvi apurar a “conversa” com o blogueiros dessa semana.

Com mais de 10 anos de experiência com o jornalismo, Vilar será o entrevistado de amanhã na rádio CBN Maceió, com o querido Carlos Miranda, a partir das 11h. O blogueiro entrevistado amanhã é um dos pioneiros em Alagoas, com cerca de 6 anos na blogosfera. Blog do Vilar

Confiram porque ele tem chamado a atenção de leitores, jornalistas e autoridades. Vilar procura fugir às regras e ao conforto da estabilidade conquistada. Sua inquietação pode perturbar os mais conformistas, mas inspira novas gerações…

Vilar

Palavras ao Vento: Quem é Vilar?

Luis Vilar: Acho que é a pergunta mais difícil de responder. Tem um quê filosófico aí…risos! Bem, enquanto jornalista o que busco ser é um profissional pautado pela honestidade intelectual na leitura dos fatos, sempre com objetividade extrema. Vejo a imparcialidade como um mito que pode se encontrar a serviço de quem menos se espera. Por esta razão, acabei optando pelo jornalismo opinativo. O blog – no caso – é só uma ferramenta. Poderia ser uma coluna, uma página, enfim… a plataforma é o que menos importa. Meu foco é muito mais no conteúdo que decidi produzir e este lado profissional acabou tomando conta de mim muito mais do que eu imaginaria. Sou um viciado em trabalho, em café e em livros.

Do ponto de vista pessoal, um sujeito de poucos, mas grandes amigos. Que acredita que para abrir a boca é preciso antes escutar e estudar muito. Não é por acaso que estes dois verbos são muito parecidos. Um sujeito que acredita que coragem e ação foram as palavras que formou o vocábulo coração (risos)! Apaixonado pela família. Sou conservador em relação a muitos valores. Não dispenso a ironia na defesa destes e das garantias de liberdade individual e do Estado Democrático de Direito. Seja na profissão de jornalista, seja como cidadão.

Trato meu lar como o templo sagrado, um refúgio. Por vezes, alguém que sempre tenta unir o pessimismo da razão, ao otimismo da vontade. Acho que Gramisc que disse isso. Não lembro agora. O que disse aqui não define muito, mas expõe alguma coisa. No RG sou Luis Alberto Fragoso Vilar e este nome talvez defina menos ainda. Em manias, sou um cara que coleciona relógios e canecas; detesto televisão, mas acabei me apaixonando por futebol e algumas séries americanas. E por falar em futebol, um completo apaixonado pelo Centro Sportivo Alagoano (CSA). E grato pelas forças da natureza terem me encaminhado entre erros e acertos a encontrar a minha mulher e a minha filha nesta jornada. Grato pela família que tive, tanto os que partiram, quanto os que aqui ainda estão.

Por fim, o cara que busca cada vez menos adjetivos e mais argumentos. Que cada vez mais foge do discurso do ódio.

 

PaV: Como vc vê o jornalismo em Alagoas atualmente?

LV: Acredito que o jornalismo alagoano evoluiu bastante desde que entrei no mercado. Nesta lacuna de tempo, no qual faço parte do jornalismo, vi muita coisa da qual me orgulhei por estar no mercado, como tive muitas decepções também. É natural. Ainda temos um jornalismo fortemente influenciado (para não usar um termo pejorativo) por determinados caciques; que sofre com o poderio político e econômico destes grupos. Mas, diante da diversidade que foi imposta pelos sites e pelo poder de contrainformação que alguns blogs ganharam – mesmo em espaço totalmente independente – temos um avanço na discussão que nos permite a pluralidade e o julgamento mais embasado do leitor.

Defendo esta multiplicidade, defendo a plena liberdade, ainda que por conta dela se cometa exagero. Afinal, democracia é processo e jamais produto. Por isso, sou contrário a qualquer tipo de controle de conteúdo. Acho que a pluralidade separa o joio do trigo para quem de fato está em busca do trigo. E hoje, vejo um jornalismo mais liberto de amarras em Alagoas, apesar de ainda precisarmos avançar muito. Uso a terceira pessoal do plural por me incluir também. Eu também preciso avançar muito, sempre ler mais, enfim… o jornalista precisa ter consciência de seu compromisso com os fatos, com a análise intelectualmente honesta (no caso do opinativo).

Temos ainda blogs de aluguel, colunas de aluguel e o jornalismo a serviço. Mas temos muita gente séria já no mercado e entrando no mercado com um sentimento de renovação que trará discussões salutares. Por isto, acredito que o hoje é melhor que ontem. E que o amanhã tem tudo para ser melhor que o hoje. Destaco espaços importantes como as pensatas do CadaMinuto, que é algo bem plural no jornalismo. Destaco o Repórter Alagoas que é uma iniciativa do Odilon Rios pela qual sou apaixonado e que abriu portas para gente que merece e deve expor suas ideias, mesmo que contrárias muitas vezes ao que eu penso, como é o caso do blogueiro Luciano Amorim, que tem trazido discussões importantes, inclusive sobre a própria mídia. Destacou aqui também um garoto do qual sou fã de carteirinha: o Paulo Veras, que tem um dos melhores blogs de jornalismo do Estado e não se encontra em nenhum veículo da chamada “grande mídia”.

Não tínhamos isto. Logo, andamos muito e precisamos – claro! – andar mais.

 

PaV: Como nasceu o blog do Vilar?

LV: Quem me acompanha sabe que eu tenho um mantra que não é feito apenas de palavras, mas de atitude: o tal “fugir da zona de conforto”. Há anos um jornalista chamado Wadson Régis me chamou para compor uma equipe num site de notícias – o Alagoas24Horas. Não existia essa onda de sites e tal. Éramos pioneiros. Lembro que falei com minha esposa e com meu pai sobre o assunto. Vi que olharam desconfiados: largar o impresso para aventurar nessa tal internet? Bem, para mim simbolizava sair da zona de conforto. Eu tinha meu nome posto nos impressos, mas queria mais. Larguei o papel e fui aos sites. Foram apertos, dificuldades financeiras de projeto em início. Mas se consolidou.

Quando estava tudo calmo. Lá vou eu pensar no marasmo e na necessidade do novo. Aí, decidi criar o blog. Ofereci o produto de graça para o Alagoas24Horas e os caras toparam a ideia. Em quatro anos de blog, os acessos justificaram o produto. Chamou a atenção do site CadaMinuto. Resolvi encarar o desafio de não só mudar de casa, passando a valorizar o produto financeiramente, mas também de encarar a salutar concorrência interna com blogueiros de renome e que admiro muito. O Blog do Vilar virou uma realidade. Consegui consolidá-lo no espaço que o CadaMinuto me ofereceu e hoje me sinto em uma família.

Mas, sabe como é? Entrar na zona de conforto? Não! Jamais! Criei o Blog do Vilar Ao Vivo e os malucos da Kuka Estratégia – dois amigos-irmãos, Flavinho Holanda e Laíse Moreira – compraram a ideia e iniciamos um programa ao vivo de uma hora em TV Online. O projeto busca a consolidação. Fechamos o primeiro ano e caminhamos para o segundo. Porém, deixa eu confessar: estou com a sensação de zona de conforto novamente. Então, tem coisa nova vindo por aí…

 

PaV: O que te motivou a desbravar a internet como jornalista?

LV: Como disse anteriormente, sair da zona de conforto que o impresso me fez cair. Mas, quando digo isso, digo por mim. Não quero que fique parecendo que é uma fórmula, nem que estou desconsiderando a importância do impresso. Jamais. Sou apaixonado pela plataforma do impresso. Tanto que aceitei o convite de retornar a ela, quando o A Semana me apareceu como um desafio novo no mercado alagoano.

 

PaV: Como você vê o espaço que inicialmente tinha a conotação de diário particular e que hoje é tomado por profissionais da imprensa? Vê como emancipação do jornalista? Independência, enfim?

É aqui que eu devo decepcionar as pessoas que me escutam ou leem em algumas palestras e entrevistas. Eu sou um analfabeto em relação às plataformas. Talvez nem ligue para elas no sentido de enxergar as técnicas e o mundo das ferramentas. Meu foco é tão grande no conteúdo que vivo quebrando todas as regras impostas para o uso das redes sociais, dos blogs, enfim… não são poucas as vezes que a Kuka Estratégia, com TODA RAZÃO, puxa as minhas orelhas e a bronca é bem dada! Mas, acho sim que o blog deu mais emancipação ao jornalista ao passo que aumentou a responsabilidade porque deu a análise, a afirmação sobre o fato, um rosto. Criou uma identificação maior com o leitor. Independente da plataforma. Há profissionais aí de jornalismo fazendo um trabalho excelente no twitter e no facebook também.

 

PaV: Com uma câmera na mão qualquer um pode ser jornalista?

LV: Bem, eu devolvo com outra pergunta: qualquer pessoa com ovos, manteiga, farinha de trigo e chocolate em pó faz um bom bolo?

 

PaV: Qual a importância do jornalista para a internet? E da internet para o jornalista?

LV: A internet é uma plataforma que permitiu revolucionar o conteúdo de uma forma genial. Ampliou-se a pluralidade. Consequentemente aumentou a responsabilidade de quem quer trabalhar sério e a dificuldade pela busca da credibilidade. A internet para o jornalista abriu mercados e possibilidades. Plataformas novas que proporcionaram uma fuga inevitável da zona de conforto. Mudou a realidade, inclusive, dos impressos, da televisão, enfim… e é um rumo sem volta. O jornalista – atualmente – é obrigado a estudar este novo meio, a lidar minimamente bem com estas plataformas que surgem dentro da internet (e eu peco muito neste quesito, reconheço). A internet também aumentou o desafio da apuração, da busca pela informação precisa, mas é preciso saber lidar com isto. O trabalho do jornalista facilitou pelo excesso de informação, mas dificultou pela necessidade de embasamento para saber separar o joio do trigo. Acho que a internet é muito mais importante para o jornalista, do que o jornalista para ela.

 

PaV: Como o blog influencia os leitores? Acha que influencia?

LV: Não sei avaliar como um blog influencia os leitores. Procuro não me preocupar com isto. Quero que o leitor entenda que o meu maior sinal de respeito para com ele é não pensar nele, nem na quantidade de acessos, ou das vertentes e desdobramentos que uma notícia pode ter. Claro que temos uma noção disto quando escrevemos, mas a minha preocupação principal é de manter a honestidade intelectual, a objetividade e avaliar a relevância do assunto escolhido. E não escrever para outros jornalistas, mas sim para o LEITOR. Tem jornalista que comete este pecado de querer escrever pelo PRÊMIO, pelo MERCADO, pela visão elogiosa de outros JORNALISTAS. Eu tento fugir disso. Não quero aqui avaliar se é o correto ou o errado. Estou dizendo que é o que eu faço. O meu diálogo é com o leitor. Há esta relação de influência, claro. Há leitores que acabam também me influenciando, me desafiando a ser melhor do que eu mesmo, me corrigindo, me ajudando a crescer… enfim! Eu preciso ter sempre um processo de auto-avaliação muito crítico neste sentido. Há comentários no blog sobre o qual passo refletindo uma semana. Enfim, vejo como natural do processo. Mas, não sei avaliar como um blog influencia leitores. Acho até – posso estar enganado – que seria arrogante de minha parte. Acho que me fiz entender.

 

PaV: O que o inspira a escrever?

LV: Saber que o amanhã pode ter um céu mais azul e que podemos enxergar melhor sempre. Às vezes escrever é tirar o céu nublado de dentro de si.

 

 

PaV: Como classifica um assunto em relevante ou não para ser publicado no blog?

LV: São muitos os critérios que busco ter. A interferência do tema na realidade local, o que ele afetaria de fato na vida das pessoas, se é uma discussão que merece ser ‘coletivizada’, o momento em que o tema está inserido por outros veículos também, os interesses já existentes em entrelinhas nos temas tratados, a não personalização de uma questão, a necessidade de revelar bastidores para esclarecer decisões equivocadas ou aparentemente acertadas, a necessidade de se afastar cortinas de fumaça de questões relevantes, e por aí vai… são muitos os critérios. Creio que é necessário que o jornalista sempre faça avaliações sobre o que escreve ou o que busca escrever. O acesso também é um critério, mas no meu caso não é o mais relevante.

Vilar2

PaV: Há um projeto paralelo, um blog chamado Conversas de Quinta, como nasceu e por quê?

LV: Veio justamente desta necessidade de sair da zona de conforto. O Conversas de Quinta nasceu porque às quintas-feiras eram os dias que eu não dava aula. Tinha a noite livre. Casou de resultar em um trocadilho “Conversas de Quinta” (quintas-feiras e quinta categoria). Mas, depois, com as mudanças de horário das aulas e outros compromissos, acabou que as atualizações ocorrem em qualquer dia da semana. O objetivo eram textos que são frutos das leituras filosóficas, literárias, teológicas, das ciências sociais que eu faço. Estas leituras estão presentes sempre de forma indireta nas análises políticas do Blog do Vilar. Mas, eu sentia que eu precisava expor melhor isto para o leitor. Ser mais honesto com ele do ponto de vista dele conhecer mais para dialogar – sobre todo e qualquer texto – comigo em pé de igualdade. Ofertar estas leituras é mostrar outra face deste jornalista que vos fala que completa a face mais aberta ao público. Assim, quem quiser ir ao Conversas de Quinta acaba entendendo melhor como enxergo algumas questões de valores, filosóficas e políticas e sabe porque nascem determinadas visões dentro do Blog do Vilar.

Vejo o Conversas de Quinta e o Blog do Vilar como almas gêmeas que se encontram para um café no fim de tarde. Possuem suas diferenças em função dos objetivos, mas semelhanças em função da complementação. Espero que o leitor enxergue isto. Ao mesmo tempo, quero que sejam completamente independentes. Do tipo: não é preciso conhecer um para entender o que está posto no outro. Ando relapso com o Conversas de Quinta; talvez porque tenho formatado um outro projeto para a internet que chama-se Café Com Pauta (outro trocadilho horrível de café com pão), como foi trocadilho um projeto que não vingou chamado Pauta Livre (trocadilho com Pau tá Livre). Enfim… eu amo trocadilhos inúteis e sem graça… risos. Mas, o Conversas de Quinta é um projeto pelo qual tenho grande paixão apesar de seus poucos acessos.

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Publicado por em 03/06/2013 em Blogs na CBN Maceió

 

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