Estive na inauguração das primeiras etapas do canal do sertão essa semana, em Água Branca, e achei ótimo o texto lido pelo governador Téo. Ele leu um discurso de seu falecido pai, nos idos da década de 70, e reproduzo aqui a íntegra do que foi divulgado porque a inteligência do menestrel e sua facilidade com as palavras é digna de reconhecimento dos artista.
Não gosto dos discursos do Governador, mas esse não é dele, mas de seu pai, quem realmente tinha o dom da oratória.
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Discurso proferido pelo então Senador da República, o Menestrel das Alagoas Teotônio Vilela (pai), na entrega da construção da ponte sobre o Rio São Francisco, ligando a Cidade de Propriá, em Sergipe, a Porto Real do Colégio, em Alagoas e lido, por seu filho, o governador Teotonio Vilela, na inauguração do Canal do Sertão.
Hoje, se não for descabida a lembrança, gostaria apenas de falar sobre as águas que passam por baixo da ponte e que num rumor surdo e solitário vão se perder no mar imenso. Águas perdidas, águas passadas, águas ignoradas. E o pior de tudo é que são águas clamadas e reclamadas pelos sertões que atravessam, águas dadivosas que recusamos ao sedento aflito e à terra esturricada.
E saber-se que essas águas que foram encaminhadas pela mão de Deus, correm por ali, cavando um leito difícil, de sacrifícios, para servir de instrumento vivo e gritante de combate à seca e de regularização ecológica da região.
A caudal imensa lá está, tal qual o ovo de Colombo, à espera de quem a descubra, para serventia do homem e da terra. Por enquanto, vive a rolar quilômetros e quilômetros, milhares deles, como uma deusa misteriosa e maligna. Apenas o pote do sertanejo ribeirinho, que nem um beija-flor, toca de longe em longe a face enigmática das águas.
Mas é preciso mais, muito mais. É preciso que a Nação vá até lá (ao Rio São Francisco), debruce-se sobre as águas e se capacite de que com tanta água não é passivei sofrer sede, deixar de plantar, deixar de viver. Águas que vêm de longe, criando corpo a cada légua, na esperança de um dia dar de beber a quem tem sede e tornar molhado o chão sem chuva.
Alagoas e Sergipe, principalmente, podem transformar os seus sertões num jardim perene. Jardim de produção. No Baixo São Francisco é possível, tranquilamente, arrancarem-se 10 milhões de sacas de arroz, o que equivale a uma riqueza superior à do açúcar, produto que, em Alagoas, representa 62% do orçamento do Estado. As terras riquíssimas do sertão, de pequenas propriedades, de densidade demográfica elevada, são as terras dos cereais, do algodão, do fumo, da bacia leiteira, do gado de corte. A diversificação da economia nordestina, de que tanto se fala, tem o seu caminho aberto no sertão.
E o sertão do ciclo do couro, de tanta influência na formação econômica do Nordeste, o sertão dos cantadores de viola e da literatura de cordel, tem vida, tem história, tem amor, tem sonhos; e se o homem o procurou antes do que a Amazônia, ou outras regiões pouco povoadas, deve haver sentido nessa preferência. Pelo menos o sentido dos acasos históricos, de que a nossa História é tão fértil e que nós temos o dever de acatar e cultuar. Nesse caso, basta existir gente no sertão para que se deem condições de vida a essa gente. E essa gente o de que mais precisa, ou do que essencialmente precisa, é de água.
Água de beber, água de plantar. Parece coisa de imaginação fácil, mas tudo é realmente tão fácil, com água, que o mundo infernal das secas tem condições de se transformar, por encanto, num paraíso.
Haverá sonho mais bonito do que sonhar, do alto da ponte majestosa, do alto da ponte da unidade nacional, que aquela água que passa lá embaixo vai ser do sertanejo, vai correr na bica de sua casa e no rego de barro de sua roça? O homem pode passar sem luz elétrica, e a luz já existe.
O homem pode passar sem a ponte,e a ponte já existe. Mas o homem não pode passar sem água. E a água está ali, virgem e oferecida, pronta a dar- e ao mais belo e humano projeto deste País, que seria o da fixação das comunidades sertanejas no seu próprio “habitat”.
Imagino velhos leitos de rio, sem rio, enchendo-se com a misteriosa inundação do São Francisco. Imagino o sertão em flor, sem mais pesadelos. A partir desse dia glorioso, teríamos menos, muito menos retirantes e mais, muito mais brasileiros integrados nos benefícios da civilização.
Nunca mais os Fabianos, as sinhás Vitórias e as cachorras Baleias, de Graciliano Ramos, em “Vidas Secas” correrão tresloucados pelas estradas fantasmagóricas do chique-chique e do alastrado. Quando surgir outro Graciliano Ramos, que é coisa que só de século aparece, poderá escrever sobre outras securas provocadas pelos males naturais do desenvolvimento, jamais sobre a secura provocada pela falta de água – sem dúvida o mais terrível anátema de subdesenvolvimento sofrido na ribeira do São Francisco, principalmente em Sergipe e Alagoas.
No dia alegre da inauguração da ponte, seria útil um instante reservado à meditação sobre as águas que passam. De Propriá a Porto Real do Colégio, o volume colossal das águas impressiona, com o seu murmúrio pungente e penetrante, como se estivesse suplicando emprego, talvez gemendo pela voz dos flagelados.
Aquele fabuloso rolo d’água sem destino, quer mais destino do que o que já teve em Paulo Afonso. Quer que a energia que ele criou não fique apenas pendurada nas heráldicas torres, quer que ela desça às suas origens, mergulhe no seu seio e transporte parte de sua abundância ociosa para os necessitados e castigados filhos do sol ardente, sempre ardente.
Deus não botou o Rio por ali, premido por um cochilo de Pedro. Botou como um desafio periódico ao homem. E o homem inicialmente o aceitou, tornando-o o Rio da unidade nacional. E aceitou o segundo desafio, tornando-o o coração energético do Nordeste. Chegou a hora do terceiro desafio, que é torná-lo o benfeitor dos seus vizinhos. Como é caprichosa e bela a história desse Rio: primeiro serviu à Nação, depois o Nordeste; só agora é que pensa na sua região particular – o sertão e o agreste. Quem há de lhe negar esse direito, quando primeiro cuidou dos outros como convinha aos interesses nacionais, e muito depois é que deseja auxiliar os seus mais íntimos, exatamente os mais pobres, os mais infelicitados, os mais necessitados da sua capacidade de dar?
Vamos ajudar o velho Rio a cumprir a sua missão histórica, principalmente essa que lhe toca mais de perto à sensibilidade: fazer justiça ao sertanejo. Já vem servindo há tanto e a tantos – iluminou palácios, fez grandes indústrias, dá conforto aos centros urbanos – agora quer lembrar-se dos mais humildes, dos Fabianos, das Sinhás Vitórias e das cachorras Baleias, das comunidades rurais, dos sertões. E não é à toa que o chamam carinhosamente de Velho Chico.
O Rio é gente, o Rio é um patriota.
O Rio São Francisco quer provar que o nosso Sertão é a terra prometida que os sertanejos procuram, sem saber que estão pisando nela.